20.12.08

A nostalgia do som.



Apercebi-me ao longo dos últimos anos que, como qualquer ser humano, julgo, criei na minha memória um tupperware, onde armazenei um pequeno leque de sons associados, subconscientemente, a sentimentos e emoções que se perpetuaram desde o momento primordial, graças a esta mesma associação. Acima de tudo a nostalgia é o sentimento que acompanha todos eles, sendo que todos se remontam à minha infância.
Nas noites do meu passado, deitado na minha cama, acordado ainda, recordo-me principalmente do som de um pastor alemão a ladrar na solidão canina das estrelas. É talvez estranho, pensam porventura, estar a especificar desta maneira o ladrar, mas julgo que seria mesmo um pastor alemão e que este apresenta um ladrar característico, aquele, naquelas mesmas condições. Relacionado também com estes momentos, outro som de que me recordo é o de uma motorizada de grande potência a percorrer a estrada nacional, relativamente perto de minha casa. Ambos os sons, o ladrar e o da motorizada, provocaram-me desde então um enorme sentimento de solidão, uma solidão tranquila e contemplativa.
Numa perspectiva algo diferente desta primeira, durante as minhas sestas estivais, ouvia o som do motor de um aparelho, que um vizinho meu possuía para, julgo, sulfatar as suas videiras. Este som e o do motor de uma avioneta que percorria o espaço aéreo sobre a minha zona, aquecem-me e trazem-me à memória a luz abrasadora do sol a percorrer as frinchas dos estores corridos do meu quarto e a tranquilidade soporífera em que me encontrava naqueles momentos.
Por fim, num contexto e espaço diferentes, em casa dos meus avós, numa zona de algum tráfego rodoviário, ouvi várias vezes e guardei o som de um autocarro a travar, característico e intraduzivel por palavras, e consequentemente o movimento de vaivém das pessoas. Este para mim é o som da Viagem, da partida e da chegada, da descoberta e do adeus. Algo que, mais tarde, quando li o On the Road, compreendi ainda melhor.
Acima de tudo estes sons são símbolos para mim, símbolos do rasto que deixei para trás e da minha própria identidade.

on Aphex Twin - Rhubarb

16.12.07

V


saltitou com duas pernas de carne e abismos com a luz de velas avermelhadas do pôr-do-sol escondido no armário de uma infância. não caminhava, nem vagueava, apenas não conseguia seguir com certeza o que um dia considerou ser a sua velhice, o seu apagar das tempestades caóticas e dignas de veneração a que assistiu passivamente e com escárnio na sua cadeira de indiferença. agora sim, lambia as pontas soltas do seu novelo de tardes passadas a contar anéis formados nas águas de amoníaco onde cuspiu pedras ou impulsos e trilhos de coágulos, ao longe o horizonte que, escurecido e de onde aves migratórias fugiam, ofuscava o seu olhar, que na verdade nem olhar seria, pois as suas pálpebras estavam unidas e não mais se separariam. assim parou e esperou, num coma expectante.

30.11.07

IV


não me sentei, envolto em sôfrega geada e rochedos cobertos de crostas de musgo, para ver o sol nascer. vim para observar a metamorfose matizada no céu, captar, por elaborados mecanismos de paixão e humilde entrega, estas composições espectrais na minha mente, esboçar um itinerário, uma espécie de catecismo para, um dia, repercurti-lo em cada grão de poeira, prole terminal dos meus ossos ... porquê ? não me será permitido libertar o eco do meu nada, espalhando-se impetuosamente pelas encostas das montanhas com que um dia eu sonhei ? um eco da cor do crepúsculo, a simbolizar a relação estreita entre o nascimento e a morte, por entre fragmentos de granito e arbustos silvestres, osso e pele das montanhas ... a estação terminal.

será até belo, num solitário ocaso outonal, observar as minhas ruínas côr-de-crepúsculo.

22.11.07

III


cravas a tua presença na minha pele labiríntica, mas eu perco-me em mim, não sei onde sou, não vou onde estou ... as rajadas de vento, vindas de um ponto cardeal para mim indiferente, assistem ao rodopio da cinza dos meus desejos. um penhasco tatuado no meu peito, sinto o sufoco de uma tarde enclausurado em sonhos com sabor de urtigas na minha garganta. tentas agarrar-me a mão mas eu já estou em queda livre, o vento arrasta-me, o meu corpo, onde vou beijar a poeira do meu trilho, mas não deixo pegadas atrás de mim, apenas arrependimentos e febres de noites à varanda com o olhar estendido a insultar a serenidade das estrelas. cada lágrima tua se condensa em flores de pétalas descoradas que, quando as tento provar, se escapam por entre os meus lábios como o orvalho matinal por entre os meus túmulos de memórias. uma noite vou acordar ao teu lado.

26.9.07

II


a madeira corpo de cristo do qual lambo as entranhas psicoactivas_corto a carne com escárnio de provar o veneno que desce o leito do rio de urina e esperma em que mergulhaste procurando nas saliências vulcânicas a tua libertação_correias que maceravam as tuas veias de frágil calibre donde tu sangre bafejava o vapor inebriante das noites carótidas como humidade sul americana descendo e deslizando nas íris embriagadas que nos aproximavam intimamente_acidificantes e corantes transdérmicos tatuavam a fusão que desejavamos em poemas escritos nas superficies ancestrais de rochas de granito cintilante_aras votivas a deuses pagãos vigilantes, esquecidos mas revelados em ocasos solsticiais.

Pintura de Pedro Esteves © pedroesteves.deviantart.com

21.9.07

I


o som dos sinos, os passos do compasso que percorre a terra devastada por poeira e horizontes negros marcados por dúvidas e persistentes coagulações transportas por criaturas crentes nos ofícios de deus.trovões mancham o céu lilás, ácidos flash's de pirilampos monstruosos fornicam as labaredas da juventude que percorre sem tréguas a superfície da loucura encontrada no fundo de um copo de absinto.trinco a língua, o prazer estremece com os muros que cercam o meu espírito, poluído...o som metálico do sino que embate, como dois meteoritos perdidos num apocalipse muito pessoal, provocando longas fendas, fundas, de infinitas trevas assolam a sua textura ...engulo a parafina gelatinosa dum candelabro macabro, afasto o fantasma que te percorre o corpo após as duas baladas crespusculares....não te agarres à falsa estabilidade que te oferecem esses seres híbridos com um farol de luz opaca cravado orgulhosamente entre as suas guelras pútridas e salientes...

Pintura de Pedro Esteves © pedroesteves.deviantart.com